Esses dias conversei um pouco por MSN com uma amiga que está fazendo doutorado e tem tido uns problemas de relacionamento em sua escola. Ocorre que o curso em que ela está não é o mesmo de sua graduação e, por isso, tem levado umas “carteiradas” de quem é da área.Imagine você, formada em medicina, tirando o seu Ph.D. em psicologia, por exemplo. Enfrentará, certamente, uma série de questionamentos e será olhado com uma dose de desconfiança pelos colegas durante um tempo, até que conquiste seu espaço e mereça a confiança de seus pares. Afinal, pato novo não mergulha fundo, certo?
O universo acadêmico é, desgraçadamente, um dos mais competitivos que existe. Uma verdadeira fogueira das vaidades, onde são grandes as chances de você sair chamuscado. E se no Brasil, como dizia José Guilherme Merquior, “a pessoa que sabe duas coisas será sempre criticada pela que sabe três” – ainda que noutra área você saiba trezentas e a outra duzentas –, na universidade brasileira esse conflito multiplica-se.
Durante nossa conversa lembrei-me de um antigo ídolo da minha adolescência, que tinha uma relação admirável com seus adversários e entendia como ninguém a questão da competição: Garry Kasparov. Nascido no Azerbaijão há 45 anos, Kasparov foi um dos maiores jogadores de xadrez de todos os tempos e detém, até hoje, a maior pontuação no ranking da respectiva federação mundial. Campeão mundial durante mais de quinze anos, foi também o mais jovem enxadrista a obter o título máximo.
Após abandonar o tabuleiro, dedicou-se a uma questionável carreira política disputando, inclusive, a presidência da Rússia, sem sucesso. Atualmente ele está à frente de sua fundação que promove o esporte como ferramenta de educação, além de manter sua militância e viajar o mundo ministrando palestras.
Duelos acirrados engrandecem as disputas – do mesmo modo que a supremacia absoluta enfraquece o combate, reduz o entusiasmo, diminui a glória. Que o diga Michael Schumacher, heptacampeão mundial de Fórmula 1, cujo interesse próprio e dos seguidores da modalidade minguavam a cada conquista sua. Não que o alemão não tivesse capacidade de superar Sennas, Prosts ou Villeneuves, mas suas vitórias e recordes não eram valorizados por Barrichellos, Damon Hills ou Eddie Irvines. Numa passagem interessante Kasparov diz: "Estar tão à frente do seu ambiente pode ser tão ruim quanto ficar atrás de seus competidores".
A presença sempre próxima e ameaçadora de sua nêmesis exigia de Kasparov constante superação. Auto-motivação é um comportamento extremamente difícil e requer disciplina absoluta. Mas a sombra de um desafio nos faz ir além de nossos limites. Por isso Garry dedica toda a reverência e respeito a Anatoli e valoriza os resultados que o grande duelo produziu.
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Fulana está brigando por um espaço e ainda não se adaptou a essa competição. Não estava preparada para isso e não escolheu um competidor. Foi escolhida. Porque num ambiente estranho, talvez estável, ela representa a diferença, a ameaça. Nas disputas você reconhece um obstáculo, identifica um objetivo, traça um caminho. Há pessoas que precisam personificar um adversário, idealizar um inimigo. Se esse não é o seu comportamento, provavelmente vai deparar-se com quem age assim. E esse inimigo pode ser você.
Que fazer? Em que ambientes é saudável ter um opositor? E quando isso pode ser prejudicial? Até onde sua fixação na superação de uma pessoa em particular vai te distanciar do seu verdadeiro objetivo, sua real finalidade?
Nos exemplos citados a resposta parece óbvia: não dá para ter dois campeões. No esporte, um só ganha quando o outro perde. É um jogo de soma zero, uma relação de vencedor e perdedor. O próprio Kasparov ilustra muito bem isso na entrevista a seguir:
Mas noutras situações a competição deve gerar benefícios, crescimento e aprendizado para ambos os lados, ou deixará de ser saudável. A disputa deverá mesclar-se com a colaboração, intercalar-se com a troca, dar lugar à parceria. Ainda que aparentemente utópica, essa relação está longe de ser impossível.
A diversidade que a gera – tão bem descrita por James Surowiecki em The wisdom of the crowds – pode trazer valiosos resultados para ambos os lados. E assim, médicos e psicólogos têm a chance de engrandecer seus resultados, multiplicar seus talentos e contribuir para os propósitos a que se dedicam – sejam eles pessoais ou coletivos
(por Rodolfo Araujo)
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