segunda-feira, 9 de março de 2009

SUA COMPETIÇÃO INDIVIDUAL

Esses dias conversei um pouco por MSN com uma amiga que está fazendo doutorado e tem tido uns problemas de relacionamento em sua escola. Ocorre que o curso em que ela está não é o mesmo de sua graduação e, por isso, tem levado umas “carteiradas” de quem é da área.

Imagine você, formada em medicina, tirando o seu Ph.D. em psicologia, por exemplo. Enfrentará, certamente, uma série de questionamentos e será olhado com uma dose de desconfiança pelos colegas durante um tempo, até que conquiste seu espaço e mereça a confiança de seus pares. Afinal, pato novo não mergulha fundo, certo?

O universo acadêmico é, desgraçadamente, um dos mais competitivos que existe. Uma verdadeira fogueira das vaidades, onde são grandes as chances de você sair chamuscado. E se no Brasil, como dizia José Guilherme Merquior, “a pessoa que sabe duas coisas será sempre criticada pela que sabe três” – ainda que noutra área você saiba trezentas e a outra duzentas –, na universidade brasileira esse conflito multiplica-se.

A questão da competição piora na medida em que outros fatores a tornam ainda mais insuportável. Por exemplo, quando ela vem de alguém hierarquicamente superior, ou quando você não foi preparado para isso – seja por questões de criação ou de background acadêmico ou profissional. Some-se a isso um temperamento um pouco mais explosivo e você vira uma bomba-relógio. É mais ou menos o caso de Fulana.

Durante nossa conversa lembrei-me de um antigo ídolo da minha adolescência, que tinha uma relação admirável com seus adversários e entendia como ninguém a questão da competição: Garry Kasparov. Nascido no Azerbaijão há 45 anos, Kasparov foi um dos maiores jogadores de xadrez de todos os tempos e detém, até hoje, a maior pontuação no ranking da respectiva federação mundial. Campeão mundial durante mais de quinze anos, foi também o mais jovem enxadrista a obter o título máximo.

Após abandonar o tabuleiro, dedicou-se a uma questionável carreira política disputando, inclusive, a presidência da Rússia, sem sucesso. Atualmente ele está à frente de sua fundação que promove o esporte como ferramenta de educação, além de manter sua militância e viajar o mundo ministrando palestras.

Algumas de suas lições estão reunidas no ótimo How Life Imitates Chess: Making the Right Moves, from the Board to the Boardroom (Bloomsburry, 2007). Desde cedo, sua vida resumiu-se a disputas, competições, adversários. Numa das passagens mais interessantes do livro Kasparov descreve sua relação com Anatoli Karpov, seu arqui-rival durante a maior parte do seu reinado e, segundo ele, um dos grandes responsáveis por seu sucesso. Para ele, a simples existência de um competidor de alto nível, com qualidades comparáveis às suas, era fundamental para manter-se no topo. Alguém que sempre exija sua melhor performance, seu trabalho árduo para a constante superação, torna-se parte da sua vida, motivação para seguir em frente, integrante de sua obra.

Duelos acirrados engrandecem as disputas – do mesmo modo que a supremacia absoluta enfraquece o combate, reduz o entusiasmo, diminui a glória. Que o diga Michael Schumacher, heptacampeão mundial de Fórmula 1, cujo interesse próprio e dos seguidores da modalidade minguavam a cada conquista sua. Não que o alemão não tivesse capacidade de superar Sennas, Prosts ou Villeneuves, mas suas vitórias e recordes não eram valorizados por Barrichellos, Damon Hills ou Eddie Irvines. Numa passagem interessante Kasparov diz: "Estar tão à frente do seu ambiente pode ser tão ruim quanto ficar atrás de seus competidores".

A presença sempre próxima e ameaçadora de sua nêmesis exigia de Kasparov constante superação. Auto-motivação é um comportamento extremamente difícil e requer disciplina absoluta. Mas a sombra de um desafio nos faz ir além de nossos limites. Por isso Garry dedica toda a reverência e respeito a Anatoli e valoriza os resultados que o grande duelo produziu.

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Fulana está brigando por um espaço e ainda não se adaptou a essa competição. Não estava preparada para isso e não escolheu um competidor. Foi escolhida. Porque num ambiente estranho, talvez estável, ela representa a diferença, a ameaça. Nas disputas você reconhece um obstáculo, identifica um objetivo, traça um caminho. Há pessoas que precisam personificar um adversário, idealizar um inimigo. Se esse não é o seu comportamento, provavelmente vai deparar-se com quem age assim. E esse inimigo pode ser você.

Que fazer? Em que ambientes é saudável ter um opositor? E quando isso pode ser prejudicial? Até onde sua fixação na superação de uma pessoa em particular vai te distanciar do seu verdadeiro objetivo, sua real finalidade?

Nos exemplos citados a resposta parece óbvia: não dá para ter dois campeões. No esporte, um só ganha quando o outro perde. É um jogo de soma zero, uma relação de vencedor e perdedor. O próprio Kasparov ilustra muito bem isso na entrevista a seguir:



Mas noutras situações a competição deve gerar benefícios, crescimento e aprendizado para ambos os lados, ou deixará de ser saudável. A disputa deverá mesclar-se com a colaboração, intercalar-se com a troca, dar lugar à parceria. Ainda que aparentemente utópica, essa relação está longe de ser impossível.


A diversidade que a gera – tão bem descrita por James Surowiecki em The wisdom of the crowds – pode trazer valiosos resultados para ambos os lados. E assim, médicos e psicólogos têm a chance de engrandecer seus resultados, multiplicar seus talentos e contribuir para os propósitos a que se dedicam – sejam eles pessoais ou coletivos

(por Rodolfo Araujo)

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