Na longa e extenuante negociação com o FGC, convenceu os principais banqueiros do país a absorver, via fundo, o prejuízo do PanAmericano e dizer adeus ao dinheiro usado para socorrer o banco
Notícia publicada na edição de 12/02/2011 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 3 do caderno A - o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.
Aos 80 anos, o empresário Senor Abravanel, mais conhecido pelo nome artístico de Silvio Santos, pode não entender de banco, como afirma, mas continua fazendo jus à fama de bom negociador. Nas últimas semanas, os interlocutores do Banco Central (BC) e do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), encarregados de negociar uma saída para a crise do banco de Silvio, o PanAmericano, tiveram uma oportunidade de conhecer face a face o lendário tino comercial do "homem do Baú", que começou a vida profissional como camelô na avenida Rio Branco, centro do Rio, e se tornou dono de um conglomerado empresarial.
No final de 2010, Silvio descobriu que seu banco estava condenado, devido a fraudes contábeis que inflaram artificialmente seus resultados, com lucros para os acionistas e bonificações extras para executivos. Para impedir que o banco quebrasse, o Fundo Garantidor de Crédito (FGC), entidade privada mantida pelos bancos justamente para salvar instituições à deriva, injetou R$ 2,5 bilhões e supostamente saneou o rombo financeiro. Como garantia, Silvio ofereceu todas as suas empresas.
No entanto, em janeiro, auditores descobriram que o rombo era R$ 1,3 bi maior. Silvio enfrentou então um duplo desafio: convencer os banqueiros do FGC a colocar mais dinheiro no PanAmericano sem mais garantias (ele já havia empenhado tudo o que tinha) e, enquanto isso, encontrar um comprador para o banco quebrado, já que o BC e o FGC exigiam a venda.
Acuado, o "homem-sorriso" mostrou seu lado implacável. Na longa e extenuante negociação com o FGC, convenceu os principais banqueiros do país a absorver, via fundo, o prejuízo do PanAmericano e dizer adeus ao dinheiro usado para socorrer o banco. Em dado momento, como os banqueiros endurecessem, Sílvio ameaçou deixar que o PanAmericano quebrasse. A falência causaria prejuízos diretos a milhares de investidores e colocaria em risco, como sempre ocorre nessas ocasiões, o próprio sistema financeiro, que poderia enfrentar um efeito dominó, com outras instituições indo a pique. Pressionados pelo BC, que exigia uma "solução de mercado", os banqueiros se contentaram com os R$ 450 milhões obtidos na venda do PanAmericano ao BTG Pactual, do banqueiro André Esteves.
Na operação de venda, Silvio também se mostrou intransigente. O BTG Pactual era o único dentreo os interessados a preencher os requisitos impostos pela Caixa Econômica Federal, que detém 49% do capital votante do PanAmericano e não admitia a venda do banco para uma instituição que fosse sua concorrente no varejo. Mesmo acuado e sem opções de venda, Silvio impôs condições. Ele não aceitava a chamada "due dilligence", a análise dos dados financeiros. É uma exigência estranha para um negócio dessas proporções, mas conseguiu. Vendeu o PanAmericano e na saída voltou a sorrir. Perguntado sobre o negócio, brincou: "Banco, que banco? O do jardim? Se não entendo de banco, por que vou ficar com o banco?"
Silvio estava, segundo um negociador, satisfeito por não ter de olhar para trás. Conseguira se livrar do PanAmericano sem ficar com dívidas, sem quebrar e sem perder suas empresas, o que, dadas as circunstâncias, foi um ótimo negócio. Entretanto, o velho sorriso voltou a ser abalado nos últimos dias, com a revelação de que a Receita Federal pretende cobrar mais de R$ 1 bilhão em impostos do empresário, por entender que a diferença entre o que ele recebeu do FGC para salvar o PanAmericano e o que pagou ao fundo com o produto da venda pode ser interpretada como ganho de capital.
Silvio poderá, afinal, ser obrigado a encarar um prejuízo dos grandes, embora se saiba que, no Brasil, muitos empresários devem para o governo e nem por isso perdem o sono. Se a Receita conseguirá receber os impostos devidos, é o que o tempo - e as surpresas guardadas no baú do empresário apresentador - irão dizer. Até mais importante que isso, porém, é que as autoridades governamentais da área financeira passem em revista os erros e omissões que permitiram ao banco de Silvio Santos, que tem a Caixa Econômica Federal como sócia, produzir uma fraude gigantesca sem que os registros contábeis e fiscais levantassem a menor suspeita.
Notícia publicada na edição de 12/02/2011 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 3 do caderno A - o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.
Aos 80 anos, o empresário Senor Abravanel, mais conhecido pelo nome artístico de Silvio Santos, pode não entender de banco, como afirma, mas continua fazendo jus à fama de bom negociador. Nas últimas semanas, os interlocutores do Banco Central (BC) e do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), encarregados de negociar uma saída para a crise do banco de Silvio, o PanAmericano, tiveram uma oportunidade de conhecer face a face o lendário tino comercial do "homem do Baú", que começou a vida profissional como camelô na avenida Rio Branco, centro do Rio, e se tornou dono de um conglomerado empresarial.
No final de 2010, Silvio descobriu que seu banco estava condenado, devido a fraudes contábeis que inflaram artificialmente seus resultados, com lucros para os acionistas e bonificações extras para executivos. Para impedir que o banco quebrasse, o Fundo Garantidor de Crédito (FGC), entidade privada mantida pelos bancos justamente para salvar instituições à deriva, injetou R$ 2,5 bilhões e supostamente saneou o rombo financeiro. Como garantia, Silvio ofereceu todas as suas empresas.
No entanto, em janeiro, auditores descobriram que o rombo era R$ 1,3 bi maior. Silvio enfrentou então um duplo desafio: convencer os banqueiros do FGC a colocar mais dinheiro no PanAmericano sem mais garantias (ele já havia empenhado tudo o que tinha) e, enquanto isso, encontrar um comprador para o banco quebrado, já que o BC e o FGC exigiam a venda.
Acuado, o "homem-sorriso" mostrou seu lado implacável. Na longa e extenuante negociação com o FGC, convenceu os principais banqueiros do país a absorver, via fundo, o prejuízo do PanAmericano e dizer adeus ao dinheiro usado para socorrer o banco. Em dado momento, como os banqueiros endurecessem, Sílvio ameaçou deixar que o PanAmericano quebrasse. A falência causaria prejuízos diretos a milhares de investidores e colocaria em risco, como sempre ocorre nessas ocasiões, o próprio sistema financeiro, que poderia enfrentar um efeito dominó, com outras instituições indo a pique. Pressionados pelo BC, que exigia uma "solução de mercado", os banqueiros se contentaram com os R$ 450 milhões obtidos na venda do PanAmericano ao BTG Pactual, do banqueiro André Esteves.
Na operação de venda, Silvio também se mostrou intransigente. O BTG Pactual era o único dentreo os interessados a preencher os requisitos impostos pela Caixa Econômica Federal, que detém 49% do capital votante do PanAmericano e não admitia a venda do banco para uma instituição que fosse sua concorrente no varejo. Mesmo acuado e sem opções de venda, Silvio impôs condições. Ele não aceitava a chamada "due dilligence", a análise dos dados financeiros. É uma exigência estranha para um negócio dessas proporções, mas conseguiu. Vendeu o PanAmericano e na saída voltou a sorrir. Perguntado sobre o negócio, brincou: "Banco, que banco? O do jardim? Se não entendo de banco, por que vou ficar com o banco?"
Silvio estava, segundo um negociador, satisfeito por não ter de olhar para trás. Conseguira se livrar do PanAmericano sem ficar com dívidas, sem quebrar e sem perder suas empresas, o que, dadas as circunstâncias, foi um ótimo negócio. Entretanto, o velho sorriso voltou a ser abalado nos últimos dias, com a revelação de que a Receita Federal pretende cobrar mais de R$ 1 bilhão em impostos do empresário, por entender que a diferença entre o que ele recebeu do FGC para salvar o PanAmericano e o que pagou ao fundo com o produto da venda pode ser interpretada como ganho de capital.
Silvio poderá, afinal, ser obrigado a encarar um prejuízo dos grandes, embora se saiba que, no Brasil, muitos empresários devem para o governo e nem por isso perdem o sono. Se a Receita conseguirá receber os impostos devidos, é o que o tempo - e as surpresas guardadas no baú do empresário apresentador - irão dizer. Até mais importante que isso, porém, é que as autoridades governamentais da área financeira passem em revista os erros e omissões que permitiram ao banco de Silvio Santos, que tem a Caixa Econômica Federal como sócia, produzir uma fraude gigantesca sem que os registros contábeis e fiscais levantassem a menor suspeita.
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