sábado, 11 de fevereiro de 2012


Ideia de eliminar os bancos centrais ganha seguidores no Brasil

Entusiastas da proposta culpam reguladores pela crise e associam defesa do BC ao marxismo 


SÃO PAULO - Você acha que o sistema financeiro funcionaria (e melhor) sem um banco central? Se não acha, saiba que você é visto como um potencial defensor do autoritarismo. Quem o enxerga dessa forma é Ron Paul, pré-candidato à Presidência dos Estados Unidos pelo Partido Republicano.
"A quinta das dez medidas propostas por Marx no Manifesto Comunista é clara: ‘Centralização do crédito nas mãos do Estado, por meio de um banco nacional com capital de Estado’. Isso não quer dizer que qualquer pessoa que defenda um banco central poderoso seja comunista. Mas mostra que um banco central é extremamente benéfico para aqueles que preferem um governo autoritário", afirma Paul em seu livro "O fim do Fed".
O grupo de pessoas que defende a extinção dos bancos centrais cresceu nos EUA depois da crise financeira de 2008 e faz eco no Brasil. Em São Paulo, a Fecomercio-SP abrigou na semana passada um debate cujo tema era "Por que acabar com o banco central". Na mesa, a estrela era o economista americano Steven Horwitz, professor na St. Lawrence University (leia entrevista).
Ele acredita que "um sistema [financeiro] competitivo sem um banco central produziria a quantidade correta de dinheiro, da mesma forma como os mercados são melhores do que um planejamento central para produzir a quantidade correta de alimentos".
Segundo o professor, os bancos seriam mais cautelosos se não existisse uma entidade capaz de "criar dinheiro do nada" para salvá-los. Assim, não se formariam as grandes bolhas, na opinião dele.
Ideia 'cool'
A proposta de acabar com o BC encontra respaldo naqueles que querem protestar contra o socorro aos bancos mas não se identificam com esquerdistas. Esse radicalismo ganha espaço principalmente entre jovens. "Pode ser ‘cool’ dizer: ‘Ei, cara, eu acredito no fim do Federal Reserve’", brinca Horwitz.
No Brasil, o Instituto Mises, entidade que editou o livro de Paul no País e organizou o debate na Fecomercio-SP, importou a tese. "Monopólio do dinheiro não é capitalismo", disse no evento o presidente da instituição, Hélio Beltrão Filho, referindo-se ao fato de que só o BC pode criar moeda.
"A grande causa da crise é o monopólio do crédito. [...] A saída não é regulamentar ainda mais. A sociedade acredita que pode dormir enquanto os reguladores trabalham, mas o caso MF Global mostra que isso está errado, porque aconteceu debaixo das barbas dos reguladores", afirmou. A MF Global é uma corretora que quebrou após acusações de que extraviava dinheiro de clientes.
O economista Paulo Rabello de Castro, presidente do Conselho Superior de Economia da Fecomercio, aproveitou a ocasião para criticar o BC brasileiro. "Aqui no Brasil a gente paga juros para nada". E continuou: "No Brasil, monopolizam-se muitas coisas, não só a emissão de dinheiro".
Defesa do BC
Na mesa do debate, havia apenas uma voz dissonante, a do economista Francisco Coelho, presidente do Conselho Superior da Ordem dos Economistas do Brasil. "O título do debate [‘Por que acabar com o Banco Central’] está errado", afirmou. E ainda provocou: "Adoraria ver os bancos centrais entrevistando os executivos de instituições financeiras, porque a qualidade [desses profissionais] está muito ruim".
Para ele, existe um problema de má governança nos bancos, que precisa ser supervisionado pelo BC. Além disso, no mercado algumas pessoas têm mais acesso do que outras a dados que influenciam o preço de um ativo. É a chamada "assimetria de informação", outro elemento que causa desequilíbrios e torna necessária a existência de um regulador.
Regulação
As pessoas que pregam a eliminação dos bancos centrais fazem contraponto às que defendem mais regulação do sistema financeiro. O grupo anti-BC acredita que foi o excesso de regulação que gerou a crise. Já o outro lado, dos keynesianos, culpa o processo de desregulamentação, ocorrido nos anos 1980.
O que houve, de fato, foi um afrouxamento na regulação, porém sem a eliminação do "emprestador de última instância", que é o Fed. Com isso, os bancos ficaram livres para fazer diversos tipos de operação, mas sabendo que, na hora do aperto, poderiam contar com a ajuda estatal.
A combinação de aumento da liberdade dos bancos com manutenção do papel do BC de emprestador de última instância agradou o setor financeiro na época, mas contribuiu para a formação de uma bolha imobiliária, o que gerou a crise e desagradou tanto os keynesianos como os defensores do livre mercado.
De qualquer forma, a tese de acabar com o Fed esbarra na vida prática. Uma vez que os BCs já existem, eliminá-los "é uma questão muito difícil", admite Horwitz.
Fonte:- O Estado de São Paulo - por Sílvio Guedes Crespo, de Economia & Negócios

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