E se fôssemos alemães?
«A Europa respira»: o título escolhido pelo Le Monde resume o sentimento de alívio que se seguiu ao último Conselho Europeu. É decerto muito prematuro falar de milagre, se é que os milagres existem…
«A Europa respira»: o título escolhido pelo Le Monde resume o sentimento de alívio que se seguiu ao último Conselho Europeu. É decerto muito prematuro falar de milagre, se é que os milagres existem…
Mas atendendo às baixíssimas expectativas que rodeavam a cimeira – e que a sra. Merkel insistentemente cultivou –, talvez já seja possível, pelo menos, não desesperar completamente de ver a Europa ultrapassar o beco sem saída em que se encontrava (ou ainda se encontra, por enquanto).
A França propôs um pacto para o crescimento, de alcance sobretudo simbólico mas que rompia com a ortodoxia germânica vigente. A Alemanha condescendeu, num gesto igualmente simbólico de pacificação, visando acalmar o clima tempestuoso que a sua intransigência provocava não apenas nos mercados e através da Europa mas também entre os parceiros do G20.
Só que a Itália e a Espanha, cada vez mais asfixiadas pelos juros da dívida e uma explosiva crise bancária, souberam aproveitar a oportunidade para abrir uma brecha na muralha. Embora concordando com o pacto de crescimento francês, fizeram depender a sua aprovação de novas condições de socorro financeiro que aliviassem o sufoco das respectivas economias.
A triangulação táctica França-Itália-Espanha revelou-se um sucesso que, à primeira vista, apanhou de surpresa a rigidez de posições da Alemanha. Ao ter perdido espaço para qualquer recuo ou compromisso, Merkel ficou refém de si mesma e dos riscos de um isolamento político insustentável se tivesse carregado sobre os ombros a responsabilidade do naufrágio italo-espanhol – ou seja, da terceira e quarta maiores economias da zona euro – e o colapso iminente da moeda única. Não convencida, mas vencida, a chanceler de vistas curtas viu-se obrigada a ceder. Pela primeira vez, ao fim de quase duas dezenas de cimeiras, algo de novo acontecia: respirava-se um outro ar na Europa.
Evidentemente, a procissão ainda vai no adro e persiste uma enorme nebulosa sobre a concretização dos passos avançados na última cimeira. Aliás, a Finlândia e a Holanda – aparentemente mais merkelistas do que Merkel, à imagem do ‘bom aluno’ português – ameaçam impedir o avanço do processo, depois de terem subscrito os resultados do Conselho Europeu. E, como era previsível, a sra. Merkel, sempre má perdedora, apressou-se a manifestar compreensão pela posição finlandesa…
Curiosamente, nem a Finlândia nem a Holanda – com um Governo de gestão e eleições antecipadas em Setembro – estão resguardadas da crise e, por isso, reagem inspiradas pelo medo. A Holanda foi já atingida pela recessão e a Finlândia deixou de ser um porta-estandarte da inovação tecnológica, com a queda vertiginosa da Nokia. Resta-lhes invocar a cartilha da austeridade e das ‘reformas estruturais’ ou representar o papel de acólitos da Alemanha. Nada que seja estranho ao periférico e sulista Portugal, cumpridor fidelíssimo dessa cartilha de receitas ruinosas – que agravaram o desastre económico e social – mas à espreita agora de aproveitar as portas abertas pelos outros.
‘Se fosse alemão, defenderia as mesmas posições da sra. Merkel’: a frase, com cambiantes diversos, é repetida em Portugal não apenas pelos nossos aprendizes neoliberais, mas até por certos comentadores que reconhecem a falência estrondosa do programa de austeridade.
Trata-se de um raciocínio absurdo e perigoso, que faz tábua rasa da memória histórica. Se a maioria dos alemães se identificam hoje com as posições europeias da sra. Merkel, talvez fosse oportuno lembrar que, há menos de um século, arrastados pela terrível recessão dos anos 1920 – esse fantasma que ainda persegue a actual chanceler –, uma outra maioria de cidadãos germânicos colocou Hitler no poder e apoiou o seu regime.
Se é injusto recriminar eternamente a Alemanha por esse passado tétrico, também não faz sentido projectarmo-nos numa identidade e numa história que não são as nossas. Sem esquecer, finalmente, que foi a Europa do pós-guerra que ajudou a libertar a Alemanha dos seus próprios demónios.
Fonte:- Sapo.pt - por Vicente Jorge Silva
Fonte:- Sapo.pt - por Vicente Jorge Silva
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