quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Medidas para reduzir dívida da Grécia desagradam mercado; entenda por quê

Para especialistas, medidas anunciadas têm apenas efeito de suavizar o problema do país 

SÃO PAULO - O resultado do esperado pacote de ajuda de controle ao endividamento da Grécia - divulgado na madrugada desta terça-feira (27) - desagradou o consenso de especialistas. Os efeitos das medidas reportadas tendem a ser apenas paliativos e incapazes de solucionar o imbróglio do país e também da zona do euro.
Depois de quase 10 horas de reunião, credores internacionais concordaram em reduzir a dívida grega em € 40 bilhões, para 124% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2020 por meio de um pacote extra de medidas, que inclui extensão dos prazos de vencimento, corte nas taxas de juros pagas pela Grécia e uma possível recompra de dívida, devem reduzir o endividamento do país "substancialmente abaixo" de 110% do PIB em 2022.
Santorini - Grécia - crise
Ações para reduzir déficit do país não são suficientes, dizem especialistas
Como o maior foco das ações é de ajuda aos bancos, o anúncio poderá injetar alívio momentâneo sobre a visão da economia do país, mas apenas um conjunto de medidas focadas em maciços investimentos poderá dar fôlego à retomada da atividade na Grécia.
Ausência de medidas consistentes
"Nada de efetivo tem sido feito. O problema grego tem sido apenas postergado", resume o economista Rafael Leão, da Austin Rating.
Já para Eduardo Roche, chefe de análise de Renda Variável da Modal Asset, porém, ainda é cedo para avaliar os impactos do imbróglio que já persiste há dois anos. "Os números foram positivos, e isso pode trazer um alívio momentâneo sobre a situação da Europa", diz. "Não se resolve, porém, um processo longo, com medida pontual, que extrapola os limites da Grécia."
O professor de Macroeconomia da UFF Marco Aurélio Cabral, avalia que o pacote pode ser interpretado de forma mista, entre uma expectativa de recuperação progressiva, ou, do lado pessimista, uma visão cautelosa, pois este poderá ser apenas um dos muitos acordos que virão. O magistrado faz coro à corrente mais desconfiada. "O que se está tentando é apenas evitar um fracasso dos bancos europeus, o que não resolve a situação do país"
Cabral faz uma ressalva que, caso haja um aprofundamento da crise, terá de haver novos acordos políticos, monetários e fiscais entre os integrantes do grupo. "A Grécia é a ponta mais fraca do sistema. Se a crise aumentar, acordos terão que ser estendidos a outros países pouco industrializados do bloco", disse.
Vale ressaltar que o PIB grego representa uma fatia de 2,19% do total do bloco, que é de 2,37 trilhões de euros, segundo dados da Bloomberg. Já as participações da Alemanha e da França no montante somam 51,88% do total. A economia do país é sustentada, basicamente, de exportação de commodities e do setor de turismo.
Sem arrecadação, não há superávit
Um ciclo vicioso impede que a Grécia consiga alavancar a sua economia e, simultaneamente, agradar o mercado, para obter mais ajuda, conforme frisa o economista da Austin Rating. Para satisfazer o mercado, o país tem de cumprir um rigoroso plano de austeridade e atingir metas estipuladas por autoridades do bloco, para conseguir angariar recursos e movimentar sua economia.
Os efeitos dos grandes cortes de gastos, contudo, acabam sendo falta de atividade, déficit e desemprego - combinação incapaz de reverter o atual cenário grego. "Sem arrecadação, a Grécia não tem superávit e, se não tem, como honrará seus compromissos?", indaga Leão.
Integração fiscal
Para o economista da Austin, a saída da Grécia da zona do euro está descartada, tendo em vista a volumosa alavancagem de bancos na Alemanha e na França em dívidas do país, o que poderia corroer a economia do bloco como um todo.
O caminho, segundo Leão, é maior integração fiscal entre os participantes do bloco, como maior liberdade para a negociação dos títulos e juros mais baixos. Os rumos, no entanto, dependem das decisões da Alemanha - economia líder do bloco.
Na visão do economista, caso o país de Angela Merkel dê maior abrandamento à inflação, para que a Grécia inicie recuperação, o mercado poderá enxergar que há uma vontade consistente de melhorar a economia, e se tornar mais flexível com relação aos custos de captação gregos.
"Neste cenário, o mercado poderia ser mais sensível, ao ver que algo tem sido feito, e, assim, cobrar taxas menores de juros da Grécia, por ver menor risco de calote do país", diz Leão. Ele acrescenta que não sinais claros de que a maior economia do Velho Continente resolva no curto prazo o problema, tendo em vista há eleição no país em 2013, e que a atual chanceler se candidatará ao terceiro mandato.
Segundo Leão, não há consenso entre os alemães sobre como deve ser a atuação do país com relação à Grécia. Por um lado, há uma corrente ligada à indústria - que tem visto suas exportações caírem com o enfraquecimento grego e de outros países - e que defende maior ajuda à Troika. Na outra ponta, é acreditado que o país deve parar, ou atenuar, o repasse de seu orçamento para ajuda externa.
Com a população alemã dividida sobre como deve ser a atuação do país com o imbróglio grego, e as eleições no país se aproximam, é provável que o consenso para o dilema seja adiado para o próximo ano - somente para depois do pleito.
Fonte:- Infomoney Por Tatiana Fernandes Gurjão

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